“Unidades de saúde lotadas e sucateadas”. “Falta de médicos e outros profissionais da saúde”. As críticas expostas por ativistas em placas e cartazes, muitas delas contra o Governador Geraldo Alckmim, que estaria “acabando com o Programa de Aids” do Estado de São Paulo, se repetiu no discurso das cerca de 200 pessoas que ocuparam o Centro de Referência e Treinamento em DST e Aids do Estado (CRT) nesta terça-feira, 28 de agosto. Os manifestantes protestaram contra um possível fechamento de leitos do CRT e contra o retrocesso de políticas públicas de combate à epidemia no País. A ocupação não atrapalhou o atendimento na unidade.

Araújo Lima Filho, diretor da ONG Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (EPAH) e um dos coordenadores do ato, explicou que a ideia de ocupar o CRT é evitar que os leitos dessa unidade de referência sejam fechados, assim como acontece com a Casa da Aids, que teve seus 3300 pacientes transferidos para o Instituto de Infectologia Emílio Ribas. “Não estamos aqui para protestar contra os responsáveis pelo CRT e pelo Programa Estadual de DST/Aids, mas contra o Secretário de Saúde e o governador, pois são eles os responsáveis pelos vários retrocessos na área da saúde e no enfrentamento da aids no estado”, disse.

O CRT tem 24 leitos de internação exclusivos para pacientes com HIV e aids. A unidade, referência mundial no atendimento de soropositivos e no planejamento de resposta à epidemia, conta com cerca de 800 funcionários, entre eles sanitaristas, infectologistas, ginecologistas, pediatras, neurologistas, psiquiatras, entre outros especialistas.

Segundo Araújo, os problemas observados em São Paulo refletem à realidade de todo o País. O ativista convidou representantes de outros estados que estavam no ato para confirmarem o retrocesso nacional contra a epidemia.

“O Brasil conseguiu chegar no topo e ser referência, mas infelizmente não conseguiu se manter lá. Hoje o que observamos no Rio Grande do Sul, por exemplo, são altas taxas de prevalência do HIV e dificuldades no acesso aos recursos financeiros destinados ao enfrentamento da doença”, disse Rubens Raffo. 

Além do Rio Grande do Sul, participam da manifestação ativistas de Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, de diferentes cidades do estado de São Paulo e lideranças de alguns sindicatos da área da saúde, como o Sindsaúde e Sindsep.

Para Rodrigo Pinheiro, que preside o Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo, o Brasil “além de fracassar há vários anos na prevenção do HIV passou também a fracassar na assistência prestada aos doentes de aids”.

Américo Nunes Neto, coordenador do Movimento Paulistano de Luta contra a Aids (MOPAIDS), disse que o fechamento da Casa da Aids e dos leitos do CRT, caso seja concretizado, são mais exemplos do retrocesso da reposta contra a aids no Brasil. “A epidemia não está controlada no País. Precisamos criar mais leitos e não acabar com os que já existem”, disse.

O professor e integrante do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), Jorge Beloqui, lembrou que, em 2003, cerca de 65 mil pessoas com HIV e aids recebiam atendimento no estado de São Paulo. Hoje, mais de 100 mil pessoas são atendidas no estado, mas não aumentou o número de leitos destinados a elas.

O especialista em saúde pública e presidente do grupo Pela Vidda de São Paulo, Mário Scheffer, ressaltou que, diante de todos os problemas apresentados no ato, os Programas Nacional, Estadual e Municipal de DST/Aids precisam ser revistos.

Os manifestantes irão ocupar o CRT durante todo o dia de hoje e depois seguirão para a abertura oficial dos Congressos e Fóruns de prevenção em DST, Aids e Hepatites Virais no Centro de Convenções do Anhembi, onde também planejam um protesto.

Governo nega fechamento de leitos no CRT, considera manifestação de cunho partidário e destaca investimentos em saúde

Em nota enviada por e-mail, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou que não está em discussão o fechamento de leitos para pacientes com HIV no CRT. “Portanto, não havia motivos para manifestações ou protestos como o ocorrido hoje”.

Sobre as unidades de saúde “lotadas e sucateadas” e as placas que informam que o governador Alckmim estaria “acabando com o Programa de Aids” do estado, a Assessoria de Imprensa da Secretaria informou que a posição dos manifestantes é política, eleitoral e de cunho partidário.

“Esta Secretaria não vê a saúde sob o ponto de vista ideológico, tampouco partidário. Ao contrário do que dizem os manifestantes, São Paulo vem investindo de forma expressiva no combate à aids”, ressalta a nota.

Segundo a Secretaria, no final de 2011, o Instituto Emílio Ribas de Infectologia ganhou um novo e moderno ambulatório, ampliando em 70% a capacidade de atendimento aos pacientes com médicos especialistas. Ainda em dezembro do ano passado, o governo inaugurou o Emílio Ribas do Guarujá, para receber pacientes da região com doenças infectocontagiosas. “A Secretaria vem investindo também em mutirões de testes rápidos de HIV, a exemplo do realizado por ocasião da Parada LGBTT e de ações semanais no Largo do Arouche, além de campanhas de prevenção como “Aids: ela não perde uma balada”, realizada pelo Emílio Ribas em casas noturnas da capital”, informa.

Ainda de acordo com a nota, nesta semana a Secretaria lançou programa inédito, voltado aos homens, para ajudar a reduzir ainda mais a transmissão vertical (de mãe para filho) do HIV e a sífilis congênita. Chamado de “pré-natal do homem”, o projeto foi implantado inicialmente em 45 cidades paulistas e até 2014 deve estar em 190 municípios considerados prioritários.

Desde o segundo semestre de 2011 a Secretaria autorizou a contratação de 3,3 mil novos profissionais de saúde, dos quais 700 médicos, para as unidades de administração direta. E investiu R$ 40 milhões para modernizar e equipar essas unidades, além da ampliação de hospitais, como o Conjunto Hospitalar do Mandaqui.

Lucas Bonanno da Agência de Notícias Aids