Por Beth Bahia e Ruth Prata*

Como inserir o uso de preservativo nas relações sexuais? Este foi o grande desafio no enfrentamento da epidemia da Aids, desde a década de 1980. Estavam, sem resultados, as campanhas do governo, com slogans de incentivo ao seu uso.

Aprendemos, ao longo do tempo e com todos os esforços, que para o preservativo fazer parte das relações sexuais e cumprir o seu papel na prevenção à Aids, as pessoas deveriam planejar a sua compra ou retirada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), saber usá-lo e com confiança. Mas, antes de tudo, deveriam gostar de si próprias, compreender o porquê do seu uso, ter projetos de vida e, pautar-se pelo respeito ao outro. Portanto, existiam e existem várias implicações nessa simples e importante ação de prevenção.

Outra lição que aprendemos, ao longo desse tempo, foi que o planejamento, o trabalho e o compromisso de cada um e de todos os atores envolvidos com a prevenção eram essenciais. Não fosse a paixão e a atuação articulada e integrada no enfrentamento para a superação das dificuldades, a luta do movimento de combate à Aids no Brasil o não teria sido considerado, no passado, como referência mundial em Aids.

E o que isso tem a ver com as manifestações que vêm acontecendo no Brasil, nesses últimos dias?

As manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre tiveram, inicialmente, e ainda têm uma reivindicação considerada legítima e necessária contra o aumento das tarifas dos transportes públicos e pela tarifa zero. As manifestações, pacíficas, fazem parte da liberdade, do ideal democrático e, pressupõem ação, participação e corresponsabilidade.

E como obter os resultados esperados, o sucesso, nesse tipo de empreitada?

Consideremos cada um de nós, com a sua singularidade, em um grande espaço que é o Brasil. Como algo, que brota do Movimento Passe Livre ou de algum outro movimento, com objetivos pacíficos e coletivos, pode ser conhecido, compreendido e apropriado por cada um e por todos? Só os slogans podem resolver? Mais uma vez podemos recorrer aos bons resultados das ações da educação em saúde, proporcionadas na atuação com a Aids: a importância da informação clara, correta e abrangente, assim como do debate, para a construção de significados e para o desenvolvimento de atitudes coletivas e de cuidado – contrariando a autocracia e fortalecendo, de vez, a democracia.

*Psicólogas e colaboradoras da Associação Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (EPAH)