Por Rodrigo Pinheiro*

Neste ano encaramos a maior crise da resposta brasileira na luta contra a AIDS, um somatório de atitudes personalistas, ações conservadoras e imensa falta de diálogo, que marcaram um retrocesso do projeto de saúde pública em curso deste a Constituição de 1988.

Os vetos a campanhas e ações direcionadas a populações vulneráveis geraram protestos em todos os cantos do Brasil, as tensões crescentes resultaram no afastamento dos diretores do Departamento de DST\AIDS e Hepatites Virais e evidenciaram uma crise interna no Ministério da Saúde e a pouca importância que a pasta dá ao enfrentamento da Aids. Prova disso foi que o órgão responsável pela política brasileira de Aids ficou sem comando por quase um mês.

Depois de muitas tratativas internas e externas, pressões, conversas em voz baixa e negativas de convidados, finalmente foi indicado o novo diretor e se esperava que a democracia voltassem a iluminar a formulação de políticas, mas o que se viu foi uma continuidade do autoritarismo que tem dominado o Ministério da Saúde.

A imposição de políticas importadas, na contramão de nossa realidade, a criação de espaços filtrados de controle social, desmerecendo a história que escrevemos há mais de 30 anos e o desrespeito com as decisões da sociedade civil foram marca inicial da nova diretoria, utilizando velhas roupagens.

Diante desse quadro o movimento social organizado reage. A suspensão na participação de espaços de interlocução como a Comissão Nacional de AIDS (CNAIDS) e com a Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais (CAMS) foi um indício muito claro de que, enquanto não houver diálogo claro, não haverá motivo para participação meramente ornamental nesses espaços.

O clima ainda continua tenso, confirmando que a participação da sociedade civil e, em especial, a situação das pessoas que vivem com HIV e Aids, ainda não é prioridade para o Ministério da Saúde. Prova disso foi a recente participação do diretor do Departamento no Encontro Nacional de PVHA, quando, no calor dos debates, optou por se ausentar, ignorando as demandas levantadas. A qualidade de vida das pessoas diretamente afetadas merecia um pouco mais de atenção do que apenas as duas horas de relógio que lhe foi reservada. Resultado: retornou a Brasília entre vaias.

Os tempos estão sendo difíceis, mas é nas dificuldades que a união se constrói e no enfrentamento organizado que as resistências se abatem.  Estamos abertos para o diálogo e a construção solidária de um Sistema Único de Saúde (SUS) que nos identifique, mas não aceitaremos medidas autoritárias que teimam em impor regras para a nossa participação e dividir nosso movimento. Infelizmente as mudanças de comando não representaram ainda, mudança de postura e vivemos neste momento o retorno a um passado, sem termos vivido um futuro esperado.

* Presidente Fórum Ongs Aids do Estado de São Paulo