encontro30anosspEm tempos em que setores do governo defendem a transferência do tratamento de HIV/aids para a rede de atenção básica, o tema “O Papel da Atenção Básica no Controle da Epidemia de HIV/Aids” atraiu um público grande para o evento comemorativo do Programa Nacional de DST/Aids de São Paulo. Um panorama assustador, no qual a atenção básica não dá conta de casos mais simples e de tratamento considerado fácil, como o da clamídia, foi exposto na segunda mesa desta quarta-feira (30). “Em 18 anos, tivemos um aumento de 99%, ou seja, praticamente 100%, de casos de DSTs. São doenças que facilitam a infecção por HIV e a porta de entrada para o tratamento delas é a rede de atenção básica”, disse o médico Valdir Monteiro Pinto, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP.

“Em 2010, tivemos mais de cinco mil pessoas internadas no Estado em consequência de complicações por DSTs”, continuou o médico do CRT. Ele destacou também que a resposta ao tratamento da sífilis, doença que existe há um século, continua absurdamente fraca. “Em 2012, nasceram no Brasil 11 mil crianças com sífilis congênita.”

Os números da tuberculose também são preocupantes, segundo mostrou a médica Laedi Alves Rodrigues Santos , do Programa de Tuberculose do Estado de São Paulo. “Muitas pessoas já têm essa doença quando recebem o diagnóstico do HIV”, disse ela. “E é muito grande o número de casos de coinfecção TB/aids só descobertos em internação ou atendimento de urgência.”

Laedi frisou em sua fala que o tratamento supervisionado tem índice de cura de quase 70% dos casos atendidos. “E eu considero antiético oferecer aos pacientes um tratamento que não seja o melhor”, continuou a médica que também pede maior mobilização da sociedade no combate à TB.

Arnaldo Sala, da área técnica de atenção básica da Secretaria de Estado da Saúde, ponderou que é preciso refletir sobre até que ponto, quando e de que forma a atenção básica poderá absorver novas demandas. No caso específico das DSTs, lembrou que da necessidade de garantia do sigilo absoluto em situações em que os funcionários pertençam à mesma comunidade que o doente.

Sala destacou que a heterogeneidade na formação e na qualificação dos profissionais representa um gargalo na atenção básica. “O perfil mais comum dos médicos é o de  recém-formado, sem especialização. É comum esse profissional não fazer pré-natal nem atender crianças, porque não se sente à vontade para isso. Então, esses pacientes acabam encaminhados para outras unidades.” Ainda segundo Sala, outro grande problema está na baixa remuneração. “Muitos municípios têm grande dificuldade em pagar os médicos e, consequentemente, em retê-los.”

O evento de comemoração dos 30 anos do Programa de DST/Aids de São Paulo segue até amanhã, com atividades a partir das 8h30, no Centro de Convenções Rebouças.

Fonte: Fátima Cardeal, Agência de Notícias da Aids, em 30/10/2013